A COP30, realizada em Belém em 2025, consolidou o setor do plástico como um dos protagonistas da transição para uma economia de baixo carbono. Empresas da cadeia petroquímica, de embalagens e instituições setoriais chegaram ao evento com posicionamentos estruturados sobre circularidade, inovação, biopolímeros e metas climáticas. Em um cenário global que pressiona pelo avanço da reciclagem e pela substituição de combustíveis fósseis, o segmento emerge como um dos mais impactados, e também como um dos mais estratégicos, dentro da agenda climática.
Para a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM), a COP30 mudará o ritmo da formulação de políticas públicas que afetam todo o setor. Segundo Carolina Riedo Sartori Almeida, Assessora de Sustentabilidade da entidade, a sinalização política da conferência foi decisiva. “A COP30 deve acelerar a adoção de políticas públicas mais alinhadas às metas climáticas, e isso tende a impactar diretamente o setor químico”, enfatiza. A Abiquim tem defendido uma política industrial climática que articule quatro pilares: metas de emissão, competitividade energética, inovação tecnológica e segurança jurídica. Dentro desse escopo, destaca o Presiq (Programa Brasileiro de Redução de Emissões da Indústria Química) como instrumento central para orientar investimentos e viabilizar a transição. “O Presiq se destaca como o principal instrumento capaz de articular essa convergência”, afirma Carolina.
Outro efeito previsto é a ampliação de oportunidades de financiamento climático. “A COP30 cria oportunidades para fortalecer diálogos com governo, setor privado e organismos internacionais”, explica Carolina. Em paralelo, a intensificação das metas de emissões deve pressionar segmentos de alta intensidade energética, que terão de acelerar sua modernização. Pela primeira vez, a economia circular assumiu posição central na agenda de negociação de uma COP, o que foi visto pela Abiquim como uma oportunidade inédita para o setor químico. “A conferência reforça a necessidade global de reduzir resíduos, aumentar a reciclagem e promover rotas circulares de produção,” enfatiza a assessora. Segundo ela, marco regulatório, rastreabilidade e incentivos econômicos serão essenciais para tornar projetos escaláveis. Em ambiente internacional, a Abiquim alerta para novos riscos competitivos, sobretudo com a expansão de padrões climáticos como o CBAM europeu (Carbon Border Adjustment Mechanism), que poderá impor barreiras ao comércio de produtos intensivos em carbono.
Já para a Braskem, o período pós-COP30 exigirá mudanças profundas na estrutura produtiva do plástico no país. Segundo Jorge Soto, diretor de Desenvolvimento Sustentável da empresa, a conferência deixou claro que a indústria petroquímica precisará acelerar sua adaptação. “A COP30 consolida um entendimento global, a transição precisa avançar mais rápido, especialmente na substituição progressiva dos combustíveis fósseis”, diz o executivo. Com a intensificação das metas de carbono, países tendem a redirecionar incentivos para fontes energéticas de menor impacto, o que poderá elevar custos de matérias-primas tradicionais. Soto reforça esse ponto ao afirmar que “a tendência é de que a nafta se torne, ao longo dos anos, uma matéria-prima mais cara e mais sujeita à volatilidade.”
Para enfrentar esse novo cenário competitivo, a Braskem opera em duas frentes estratégicas. A primeira é a diversificação da matriz de insumos, reduzindo a dependência de derivados de petróleo. “O primeiro pilar é usar mais correntes do gás natural, como etano e propano, que são menos intensivas em carbono e mais competitivas no longo prazo”, explica Soto. A segunda frente amplia o uso de fontes renováveis, apoiada em mais de 15 anos de experiência da empresa no desenvolvimento de biopolímeros. A aposta na bioeconomia brasileira, reforça o executivo, ganhou novo peso após a conferência. “A COP30 é um divisor de águas para a bioeconomia. O Brasil tem posição privilegiada para liderar essa agenda.” A empresa destaca sua liderança global na produção de polietileno renovável, exportado para mais de 40 países, e lembra que cada tonelada do material I’m green™ bio-based representa uma absorção líquida de 2,12 toneladas de CO₂ equivalente.
A descarbonização industrial também assume protagonismo. A companhia afirma que, entre 2020 e 2024, reduziu mais de 1 milhão de toneladas de CO₂e por meio de melhorias contínuas, eficiência energética e eletrificação. Segundo o diretor, alcançar a neutralidade climática se tornou uma demanda do próprio mercado. “Neutralidade de carbono não é mais um diferencial; é uma exigência de clientes, investidores e governos.”
No segmento de embalagens, a LORD Brasil reforça que a COP30 acelerou tendências já perceptíveis no setor. Para Maria Claudia Muraro, Gerente de Marketing e ESG, a mudança é estrutural. “A conferência reforça algo que já está avançando no Brasil: a necessidade de reduzir impactos ambientais ao longo da cadeia”, explica. A empresa identifica três linhas prioritárias de inovação, ampliação do uso de PCR (material pós-consumo), desenvolvimento de estruturas mais recicláveis e parcerias mais estreitas com petroquímicas e grandes marcas.
Cláudia destaca que, a partir de agora, “a circularidade deixa de ser tendência e vira requisito.” A executiva também aponta um novo movimento trazido pela conferência: a pressão por maior transparência. “A COP30 deixa claro que a cadeia deve comunicar melhor o que faz. Transparência vira diferencial competitivo”, sinaliza. Para a LORD, isso significa divulgar com mais clareza projetos de logística reversa, conteúdo reciclado, investimentos sociais e rastreabilidade.