CADERNO ESTRATÉGICO CAP.M | em parceria com Plástico Sul América
Especial Fórum de Economia Circular e Competitividade · 2 de 4
Por Marcelo Mason | CAP.M Consulting
O que a guerra ensinou é que o inimigo da indústria brasileira nunca foi o preço alto. Foi a incerteza. E o Brasil tem, na mão, um antídoto que poucos países têm
Semana passada, ao abrir esta série preparatória para o Fórum de julho, deixei uma pergunta sem resposta de propósito. Diante da reconfiguração geopolítica que está redesenhando as cadeias produtivas do mundo, o Brasil é vítima ou tem carta na mão. Prometi começar a responder, e a resposta exige primeiro derrubar uma ideia que a indústria brasileira repete há décadas como se fosse lei.
A ideia é a de que competitividade se resume a ter o menor custo. É uma meia verdade, e meias verdades são perigosas porque parecem completas. Custo importa, mas qualquer um que tenha gerido uma operação industrial em tempos de turbulência sabe que existe algo que corrói margem mais rápido que o custo alto. É a incerteza sobre qual será o custo amanhã.
Os últimos meses foram uma aula sobre isso, e a coluna desta semana é sobre a lição.
O que realmente quebrou a indústria não foi o preço
Quando o Brent saltou de US$ 71 para mais de US$ 117 e a resina dobrou de preço no Brasil, a reação imediata de muita gente foi tratar o preço alto como o vilão. Não era.
Empresas maduras sabem operar com matéria-prima cara: elas repassam, renegociam, ajustam mix, repactuam prazo. Custo alto é um problema administrável quando ele é conhecido.
O que de fato desorganizou a cadeia foi outra coisa.
Foi a impossibilidade de saber, ao fechar um pedido, qual seria o preço de reposição daquele material na semana seguinte.
Foi o transformador que assinou contrato anual com a marca baseado numa curva de custo que evaporou em quarenta e cinco dias.
Foi o comprador que travou estoque achando que era topo e viu o preço subir mais, ou que esperou a queda e foi atropelado pela alta.
A volatilidade, não o patamar, foi o que destruiu planejamento, margem e relação comercial.
Volatilidade é um imposto invisível. Ela não aparece na composição de custo, não entra na planilha de formação de preço, não tem uma linha contábil própria. Mas é talvez o mais pesado dos tributos que a indústria brasileira paga, porque é o custo de não conseguir planejar com confiança. E num cenário de reconfiguração geopolítica permanente, esse imposto veio para ficar.
Por que o mundo inteiro perdeu previsibilidade ao mesmo tempo
Aqui está o que torna este momento diferente de outras crises. Não é o Brasil que perdeu previsibilidade isoladamente. Foi o mundo inteiro, simultaneamente, e por razões estruturais que não se resolvem com o fim de um conflito específico.
O protecionismo que voltou à cena redesenha tarifas e barreiras de um trimestre para outro. A renacionalização produtiva muda quem fornece o quê sem aviso prévio. A energia transformada em arma geopolítica faz o custo de base oscilar ao sabor de tensões militares. Os blocos econômicos sendo redesenhados tornam obsoletos acordos comerciais que pareciam permanentes. Cada uma dessas forças, sozinha, já injetaria incerteza. Juntas, criaram um ambiente onde a única certeza é a de que vai haver mais incerteza.
E é exatamente nesse ambiente que se abre uma janela competitiva rara. Porque quando todos perdem previsibilidade ao mesmo tempo, quem conseguir reconstruí-la primeiro larga na frente. A competitividade do futuro próximo não vai ser de quem tem o custo mais baixo num dia específico. Vai ser de quem consegue garantir ao cliente um custo estável ao longo do tempo, mesmo que esse custo não seja o menor do mercado. Previsibilidade virou produto.
A carta que o Brasil tem na mão
É aqui que a resposta à pergunta da semana passada começa a tomar forma. O Brasil tem, sim, uma carta na mão, e ela tem nome: matéria-prima própria.
Pense no que isso significa num mundo que renacionaliza produção e trata energia como ativo estratégico. O Brasil tem petróleo do pré-sal em volume relevante. Tem gás natural cuja disponibilidade está crescendo, associada à produção do pré-sal. Tem, do outro lado da fronteira, a Argentina sentada sobre Vaca Muerta, uma das maiores reservas de shale do planeta, com etano a um custo que é fração do da nafta importada e a uma distância logística que viabiliza o suprimento. E tem uma indústria petroquímica instalada que está, neste exato momento, migrando matéria-prima de nafta para gás, nos polos da Bahia e do Rio Grande do Sul, justamente para ganhar a previsibilidade de custo que o gás doméstico oferece e que a nafta importada, atrelada ao Golfo, jamais vai oferecer.
Esse é o trunfo. Matéria-prima de origem doméstica ou regional é matéria-prima imune à volatilidade do Oriente Médio, imune ao câmbio do petróleo importado em boa medida e imune ao frete marítimo intercontinental. É a fonte de previsibilidade que o resto do mundo está caçando e que o Brasil tem geograficamente ao seu alcance.
O painel de petroquímica do Fórum, que reúne a Solange Stumpf, do Grupo MaxiQuim, e a Abiquim, vai tratar disso de frente: dependência externa, vulnerabilidades, transição para insumos circulares e matéria-prima como vantagem competitiva. É a discussão sobre como o Brasil para de ser refém da molécula importada e passa a ser dono de parte relevante da sua própria base de insumos.
Mas o trunfo sozinho não ganha o jogo
Seria irresponsável da minha parte vender a matéria-prima própria como solução mágica. Ela é necessária, mas não suficiente. Porque a competitividade real é sistêmica, e a molécula barata na origem pode chegar cara na fábrica se o resto da equação estiver quebrado.
E boa parte dela está. O custo logístico brasileiro é dos mais altos do mundo para um país de dimensões continentais, com excesso de dependência rodoviária, portos congestionados e integração multimodal que existe mais no papel que na prática. A carga tributária sobre a indústria distorce decisões, encarece insumo, penaliza quem produz. A infraestrutura que deveria dar fluidez à cadeia muitas vezes é o gargalo que a trava.
Não é por acaso que o Fórum dedica painéis específicos a isso. O de infraestrutura logística, com a Fernanda Boldo, da Activas, e o Rodrigo Vilaça, do conselho superior de infraestrutura da Fiesp, vai tratar de portos, rodovias, ferrovias e do impacto disso no custo e na previsibilidade industrial. O de incentivos e tributação vai enfrentar como a estrutura tributária e a reforma em curso afetam a competitividade. Porque de nada adianta ter o etano mais barato da América do Sul se ele leva quarenta dias para atravessar o país e paga, no caminho, uma carga tributária que anula a vantagem da origem.
A competitividade que o Brasil precisa construir é a soma de tudo isso. Matéria-prima própria na base, logística que funcione, tributação que não puna, e a previsibilidade emergindo dessa combinação como o verdadeiro diferencial.
A ponte para a próxima semana
A palestra magna do Fórum, com a economista e ex-ministra Dorothea Werneck, abre justamente o eixo de competitividade, seguida do painel que a reúne com a professora Raquel Pontes, da Unisinos, e o Giovanni Baggio, da Fiergs. É a moldura conceitual para tudo o que descrevi aqui: o que define competitividade na nova economia, produtividade, eficiência sistêmica, posicionamento global, e a ideia de competitividade sustentável como diferencial estratégico.
Essa última expressão, competitividade sustentável, é a ponte para a coluna da próxima semana. Porque existe uma fonte de matéria-prima própria que eu deixei de fora de propósito nesta coluna, e que é talvez a mais estratégica de todas num horizonte de dez anos. O material reciclado. Reciclado de qualidade é insumo de origem doméstica por definição. Não vem do Golfo, não atravessa oceano, não depende de câmbio de petróleo, não treme quando Ormuz fecha. É a forma mais avançada dessa mesma busca por previsibilidade que organizou toda esta coluna.
É disso que vou tratar na semana que vem, quando entrar no eixo de circularidade do Fórum e no painel sobre como redesenhar a circularidade ao longo da cadeia produtiva. A competitividade e a circularidade, que pareciam pautas separadas, vão se revelar a mesma coisa.
A reconfiguração geopolítica tirou a previsibilidade do mundo. Quem souber reconstruí-la, com matéria-prima própria, logística eficiente e circularidade real, não vai apenas sobreviver ao novo cenário. Vai liderá-lo. O Brasil tem as cartas. Falta jogar.
Nos vemos em Porto Alegre.

As inscrições para o 5º Fórum de Economia Circular e Competitividade estão abertas pelo Sympla. O evento acontece nos dias 14 e 15 de julho, em Porto Alegre.
Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, especializada em estratégia, marketing e ESG para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.