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O MERCADO VÊ O BARRIL. A NAFTA CONTA OUTRA HISTÓRIA

Radar Nafta & Coluna de Estratégia CAP.M | Edição Especial

Por Marcelo Mason

Tem uma armadilha silenciosa se formando no mercado de resinas essa semana.

O Petróleo Brent nos mercados futuros (junho/26) recuou abaixo de US$ 100. Gestores de compras seguraram pedido esperando queda de custo. O raciocínio parece lógico: barril cai, resina cai.

O problema é que a indústria petroquímica não compra contrato futuro. Compra molécula física. E o mercado físico está contando uma história completamente diferente da tela do Bloomberg.

Analistas do Saxo Bank documentaram o que muitos no setor ainda não perceberam: a queda nos futuros foi puxada por posições especulativas compradas em excesso, não por melhora real na oferta. O petróleo físico para entrega imediata está sendo negociado com prêmio de US$ 40 a US$ 50 acima do futuro. O blend Forties (referência física do Brent) bateu US$ 147 o barril na semana passada. Recorde histórico. Dez milhões de barris por dia continuam presos em Ormuz sem chegar à refinaria nenhuma.O mercado de papel piscou. O mercado de moléculas não.

Em 9 de abril a Arábia Saudita divulgou pela primeira vez o balanço real dos seus danos. O comunicado saiu pelo canal do Ministério da Energia (não pela Aramco corporativa). Essa escolha de roteamento diz algo: é comunicação soberana, não relação com investidor. Quando um governo decide falar assim, o que vem a seguir tende a ser verdade difícil.

O que veio: 1,3 milhão de barris por dia comprometidos entre produção upstream e oleoduto. Refinarias atingidas. Campo de Manifa, Campo de Khurais. A unidade Ju’aymah com exportações de hidrocarbonetos interrompidas.Mas a Arábia Saudita é só uma parte do mapa.Nos Emirados, Ruwais, uma das maiores refinarias do mundo, sofreu múltiplos incêndios por detritos de defesa aérea. No Bahrein, a Bapco Energies, com 400.000 barris/dia de capacidade, declarou força maoir. A Gulf Petrochemical Industries teve unidades em chamas em 5 de abril. No Kuwait, a KNPC e a Petrochemical Industries registraram danos em vários sites, as refinarias Mina Al-Ahmadi e Mina Abdullah foram atingidas mais de uma vez. No Iraque, operações foram suspensas em abril.

A IEA colocou um número nesse estrago todo: mais de 3 milhões de barris por dia de capacidade de refino da região já fecharam em ataques diretos, detritos de defesa aérea, paralisia preventiva.

Agora o ponto que o setor de plásticos precisa ouvir claramente. Onde essa geopolítica toda que passamos a tentar entender nas últimas semanas aterriza.

A Satorp em Jubail não era só refinaria de diesel. Produzia benzeno, tolueno, paraxileno, propeno. Insumos da cadeia petroquímica que vira resina, que vira embalagem. No mesmo local estava previsto para 2027 o complexo Amiral com investimento total de US$ 11 bilhões, 1,65 milhão de toneladas de cracker, 1 milhão de toneladas de polietileno por ano. Era capacidade nova que o mercado global estava precificando na oferta futura. Esse volume saiu do cálculo. Não temporariamente.

Total Energies interrompeu produção no Catar, Iraque e Emirados, perto de 15% da produção total da companhia. ExxonMobil reportou impacto no primeiro trimestre por interrupções no Oriente Médio que em 2025 respondiam por cerca de 20% da sua produção global. Essas empresas não voltam na semana que vem.Prazos para reativação das instalações danificadas: dois a cinco anos, dependendo do ativo.

Ormuz reabrir normaliza o frete. Reduz o prêmio geopolítico nos futuros. O mercado de papel respira.

Planta destruída não reabre com acordo diplomático. Essa é a distinção que está sendo sistematicamente ignorada em qualquer análise que use o Brent como proxy de custo de resina.

Quem está esperando o Petróleo Brent futuro abaixo de US$ 100 se traduzir em alívio de custo nas próximas semanas está usando o termômetro errado. O indicador que importa para a cadeia petroquímica é o preço físico da nafta, que reflete oferta real de moléculas, não expectativa de trader em Chicago.

Quem postergou compra esperando queda vai disputar material com o mercado inteiro no mesmo momento, num cenário de oferta estruturalmente menor do que antes da guerra. E quem tem material reciclado homologado no mix segue sendo o único elo da cadeia com insumo que não passou por Ormuz nem dependia das plantas que não existem mais na capacidade em que existiam.

A crise entrou numa fase mais lenta, mais estrutural, menos dramática no noticiário. Exatamente por isso é mais perigosa para quem parar de prestar atenção.

Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, especializada em estratégia, marketing e ESG para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.

Este artigo integra a série de análise estratégica semanal CAP.M, publicada em parceria com a Revista Plástico Sul América.

https://oilprice.com/Energy/Crude-Oil/Paper-Oil-Blinks-While-Physical-Supply-Tightens.html: O MERCADO VÊ O BARRIL. A NAFTA CONTA OUTRA HISTÓRIA