Por Moisés Weber
O mercado brasileiro de plástico, tanto o de resinas virgens quanto o de reciclados, vem sendo diretamente afetado por uma sobreoferta global de resinas envolvendo principalmente os Estados Unidos e a China. Com fontes baratas de produção, regras distintas de tributação e diferenciais competitivos, as duas potências se tornaram grandes exportadoras de resina virgem – que está vindo parar, sem dificuldades, no Brasil. Nosso país, que ainda está no lento processo de estruturar regulações e incentivos para uma economia mais sustentável, virou um dos principais destinos deste plástico importado e das consequências ambientais e socioeconômicas atreladas a isso.
O cenário global das resinas plásticas mudou drasticamente desde que os EUA e a China deixaram de ser importadores para se transformar grandes exportadores de resina — os EUA, beneficiados pelo baixo custo do shale gas, e a China, com sua eficiente indústria petroquímica. Ambos inundam o mercado internacional com produtos a preços muito competitivos, o que vem causando retração na indústria petroquímica europeia, que viu sua participação na produção global cair de 27% para 14%. Ironicamente, enquanto os EUA exportam resinas virgens, proíbem a entrada de produtos que não tenham conteúdo reciclado nas embalagens.
Nesse contexto, o Brasil se tornou um dos maiores destinos dos excessos de resina virgem vindos dos EUA, que chegam muitas vezes pela Zona Franca de Manaus, sem imposto. Enquanto isso, nossos índices internos de reciclagem retrocedem. A reciclagem de plásticos PCR caiu 17% de 2022 para 2023, segundo panorama da Abiplast, e falamos excessivamente sobre o combate às mudanças climáticas e à poluição. Ainda assim, não paramos de importar sem critério algum resina virgem a preços mais baixos que o próprio custo do material reciclado.
O mesmo vinha acontecendo com a importação de sucata, assunto amplamente debatido por resultar num fluxo de resíduos para dentro do Brasil, sendo mais barato importar resíduos que comprá-los no mercado interno. Recentemente, o Senado aprovou um projeto de lei que proíbe a importação de resíduos sólidos, dessa forma o reciclador enfrenta aumento de custos, arcando com uma proibição que não se estende ao material concorrente virgem.
Vale, primeiro, ressaltar que as fabricantes nacionais de polietilenos também vêm tendo prejuízos com a concorrência internacional, que, além de ter uma base de custo mais competitiva, despeja altos volumes de produtos em mercados externos para evitar a deterioração dos mercados domésticos. As petroquímicas brasileiras são diretamente afetadas porque os transformadores veem vantagens na compra de resinas vindas de fora, devido aos baixos preços.
Os recicladores enfrentam um desafio ainda maior, a perda de mercado, por conta dos preços mais altos cobrados por materiais plásticos reciclados, que carregam o custo da logística reversa, o alto custo Brasil e a ineficiência do estado em fazer sua parte. A reciclagem, que deveria estar no seu ápice no momento de transição para uma economia circular, enfrenta desafios de logística, tributação, capacidade produtiva e compromissos escassos por parte de empresas que deveriam dar prioridade ao PCR.
Entre as soluções para as quais devemos olhar, estão: a tributação mais justa para o reciclado no Brasil, a partir da inclusão do setor na reforma tributária (que, aprovada pelo Senado em dezembro, segue para sanção presidencial); a taxação sobre resinas virgens que entram por Manaus; a determinação de medidas que limitem a entrada de plásticos que não cumpram os requisitos ambientais impostos às empresas nacionais; e a exigência de reciprocidade com os países com os quais fazemos negócios.
Vale lembrar que as resinas que entram no Brasil hoje viram o nosso lixo de amanhã, caso a indústria da reciclagem não tenha condições de atuar para reverter o cenário. Estamos perdendo duas vezes. Mas, não queremos mais perder – principalmente, não a determinação e a coragem de fazer o ciclo mudar.
Moisés Weber – CEO da Plastiweber